TERESA: A força dos frágeis é que é a beleza, porque a força dos fortes é uma coisa obscena. Eu sou mais da força dos frágeis.


BEATRIZ: Os fortes podem dar-se ao luxo de ser frágeis - os frágeis não têm outro remédio se não serem fortes para sobreviver. Acho que é sempre muito mais interessante a força dos frágeis.



(Teresa Villaverde e Beatriz Batarda, em entrevista à Ípslon, 9 de Setembro de 2011.)

Notas sobre a leitura deste blog.

Este blog trata da construção de um projeto e tem por isso uma ideia de princípio, meio e fim. De forma a tirar melhor partido da sua leitura e atentendo às especificidades desta configuração, recomendo que o leitor se diriga com o cursor até ao fim da página, que corresponde ao início da narrativa e venha em seguida subindo até aqui.

Coming next

O FAROL ou RAPARIGA COM TOCHA NA MÃO.
Lupa, rua Augusto Rosa (next to TNS. João), 176, 3º dto.
Sexta, 22 h. Sábado, 24 e domingo, 25, 19 h.

The combat

Now that you've got the tears and emotions down, let's put all the things together. Are you ready?

Hey! It's time to fight. Everybody yeal "Pink and White". Pink and white. Hey. Hey. Let's do it again. Everybody yeal: Go, fight win. Go. Fight. Win. Pink and white, go fight, win.

What if I,

what if I, what if I
can’t make it?

HOW DOES NYC LOOK LIKE IN ORDER TO BE NYC?


THE FIGHT

Nova Iorque fica do outro lado do mundo. Tenho de atravessar o oceano. A viagem é difícil: primeiro o dinheiro para a passagem, depois o barco, resistir à fome, à doença para chegar lá e conseguir que o serviço da fronteira me deixe entrar. Passando isso tenho de encontrar A OPORTUNIDADE.

Se a encontrar tenho de a agarrar e depois conseguir mantê-la, custe o que custar.

STRUGGLE. Struggling for survival.
Here comes THE FIGHT.

Meet the NEW YORK URBAN JUNGLE QUEEN!!

Qual é a sua ideia de Nova Iorque?

Estimado visitante,

É altura do público se chegar à frente para apoiar esta causa comum. Não vote nas europeias, vote na sua própria Viagem a Nova Iorque.

Se anda confuso com a vida, se nada parece dar certo, se todos os seus esforços parecem continuamente ficar em águas de bacalhau, se todos os seus amigos tentam amavelmente disfarçar a falta de fé nas suas reais hipóteses de conseguir o que quer que seja e a sua família perdeu toda e qualquer esperança em si, esclareça-se. Responda a esta questão e junte-se a uma vasta tripulação de emigrantes no caminho para a terra da oportunidade.

Agarre Nova Iorque. Nova Iorque pode ser sua. Responda já.

Envie a sua resposta diretamente para este blog ou para micaelamaia@gmail.com.

(Peço no entanto, que tenha a paciência de ler toda a informação aqui disponibilizada sobre o conceito de Nova Iorque neste projeto. ISTO NÃO É O QUE PARECE.)

Thank you, guys. Jamais percam a tocha de vista.

What does New York look like in order to be New York?

My friend Amanda just gave me the most important question about New York. Thank you.

Para encontrar esta resposta peço aos visitantes que respondam à pergunta que vou deixar. Além da nobreza de ajudar a construir este tão lindo projeto, poderão focalizar-se naquilo que é a meta de cada um, o que dá sempre jeito vistas as circunstâncias de dispersão a que estamos todos sujeitos. Lembrem-se, esta é provavelmente a pergunta mais importante da vossa vida. ESTA É PROVAVELMENTE A PERGUNTA DA VOSSA VIDA.

Muito obrigada,

Micaela Maia

Calma, calma...

Já sei que está um bocadinho massudo, mas estão quase a chegar as fotografias da última apresentação relativa ao tema "As personagens da viagem", Maio de 2009.

Liebe tempest

Liebe tempest

Mapas para a viagem e para as personagens da viagem

NEW YORK CITY
É o nosso El Dorado particular. É o Novo Mundo (o mundo da abundância). Representa a procura de uma vida melhor pelas pessoas que passam privações, dificulades de vária ordem, mas sobretudo materiais. A viagem para lá chegar, atravessando o atlântico, era muito difícil e longa. Muitas vezes os emigrantes chegavam lá doentes, às vezes demasiado para poderem entrar e tinham de voltar para trás – o que é devastador. Não obstante as pessoas partiam, porque tudo é melhor do que a morte certa no Velho Mundo (o mundo da escassez). Por isso Nova Iorque, aqui, não é uma cidade geográfica, é uma cidade mitológica. É o El Dorado dos últimos dois séculos e é a referência da metrópole no meu contexto cultural. Todos temos a nossa NYC pessoal ou, como acho graça dizer, “Nova Iorque somos todos” .



LOVE ME TENDER E LOVE ME NOW
São duas personagens um bocado tristes e solitárias, muito “secas”. O caminho é árido, a paisagem tornou-se árida e condiz com eles, com a sua nova condição. Eles são talvez a versão de Lovely-Lovely e Bored to Hell mais à frente no tempo.



LIEBE TEMPEST
Não sei se é um gato-trenó salvador, se é um suplício a que está sujeita a figura carregada no trenó. Ela quer morrer suavemente, mas não consegue, porque o gato corre e faz o trenó andar aos solavancos. Não sei se é um gato enfermeiro se é um gato-algoz, mas a ideia de sofrimento que não abranda, não se suaviza está muito presente.



OS MEUS PÉS
Representam um ponto de elevação, de libertação. É o momento “bom”, consequente à morte. São singelos, que é como quem diz, “puros”, sobretudo porque – e isto incomodava-me ao princípio – têm as unhas tortas e feias. Os pés são um pouco feios, porque são naturais. Antes da morte e da elevação, talvez tenham tido que andar descalços, ao frio, para tentar sobreviver na falta de resguardo. Por isso as unhas cresceram tortas e partidas. Não são trabalhados, são singelos e isto dá-lhes um equilíbrio de beleza.

ENCHANTED CHILD
A Criança Encantada está sozinha num plano superior. É muito delicada e frágil, por isso acho-a bela. Ainda mais quando reparo que ela tem um pé a mais (se calhar é por isso que está sozinha). Há uma certa tristeza nesta figura, mas um pé a mais representa a meu ver, mais um avanço para a espécie do que uma monstruosidade, mas nós sabemos como estas coisas se confundem. O que interessa é a solidão e o vôo, claro. Ela é toda leve, se não fosse tão pesada.



BEAUTY PATHOLOGY
Para mim aqui o importante é o silêncio e a crueldade da figura e do cenário. Beauty Pathology é um lutador que vive num mundo extremamente árido. No entanto no seu cenário existem flores, o que me faz pensar que a vida e a beleza realmente florescem mesmo nas piores condições. Ele perde-se a olhar para as flores e eu penso que em determinada altura ele as vai comer. Isto pode parecer patético, mas ao mesmo tempo é comovente, porque ele deseja assimilá-las (para sobreviver). Ou talvez ele apenas as defenda, porque são o mais importante que ele tem.



OLD NEW YORK FAIRY
É uma mulher velha e magra que passa por mim na rua. Ela usa um casacão muito coçado para se aquecer, mas por baixo ela usa uma roupa de lantejoulas douradas, como uma fada caída, reformada ou desempregada. Na mala de mão ela leva a sua varinha e diversos pós mágicos, mas nos sacos de plástico leva coisas praticas e úteis, como garrafas de plástico vazias, etc. Alguns sacos andam no ar, mas eu acho que estão vazios e seguem-na como animais de estimação. Eu acho que são os sonhos.



SO DEPRESSED BEAR
Esta é uma figura melancólica. Realmente ele é inocente, representa uma ingenuidade sinceramente “pura”, mas ele não é tonto. Ele fala de uma forma lúcida, porque não percebe mesmo porque é que as pessoas não se podem dar bem. Ele parece ter sido magoado, no entanto o coração dele é puro e esforçado, por isso não percebe mesmo – não é circunstancial, não é inconsequente, é só triste.



ME-BEAR
Este urso é uma menina vestida de urso para parecer maior e proteger-se. Ela é forte e fala com convicção, mas está assim mascarada para poder ser levada a sério, porque o corpo dela é franzino, frágil, mas ela própria (a sua mente) não é. Ela está assim vestida por causa dos outros e da imagem que ela tem de projectar. Ela sabe que a imagem é importante para os outros e ela quer ser ouvida por eles. Por outro lado, o fato insuflável é um bom amortecedor se ela cair. É claro que se as pessoas se aproximarem o suficiente e virem que o fato é feito de ar podem facilmente furar-lhe a protecção. É por isso que ela se mantém ao longe.


A Terra

A Terra
Esta figura é uma pessoa a quem cresceu uma pérola no lugar do coração (tal como no poema de Al Berto), mas é também um planeta do qual brotou uma cidade vulcânica. Esta é a sensação que os arranha-céus muito compactos me provocavam nas ruas de NYC. É uma figura profundamente compacta, monolítica, como o nosso planeta deve ser, cujo recolhimento é muito pronunciado. Parece adormecida ou cabisbaixa, “ensimesmada”. No entanto dá-me a sensação de que faz isso como concentração de força, para melhor equilibrar e suportar o peso daquela cidade-pérola que rebentou por trás do coração. Uma pérola nunca é nada confortável para a ostra que a carrega, no entanto uma pérola é uma pérola (É uma pérola, é uma pérola).

Glória 1

Glória 1

Glória 2

Glória 2

"WHERE ARE WE FUCKING GOING?!!"



De vez em quando ainda ouço isto na minha cabeça.

Old NYC Fairy

Nem todo o bom calçado é caro. Nem todo o calçado caro é bom. (As melhores coisas da vida continuam a ser de borla.)

"Quando te vires descalça..."

Já não sei o que disse depois. Fiquei ali parada na singeleza desta expressão, na coisa de fragilidade e amparo que me transmitia. No meio do bar, parecia um daqueles quadrinhos de feira em que há um anjo de cabelos compridos a guiar uns meninos que se perderam na floresta. Certas coisas assim improváveis são sempre as mais capazes de me tocar.

Acima de tudo deves definir a tua direção (Não te deixes enganar pela simplicidade. Nada tem nunca uma única face, sabes disso como ninguém). Depois calça as tuas botas. É preciso ir de botas e há-de haver sempre uma altura em que se rompem as solas. Nesses dias, a coisa mais importante são aqueles que te sopram nas brasas de quase-morto e reavivam a tua fogueira interior.

"Quando te vires descalça...", disse. E eu completei: Tu vais ser a minha sandalinha, é?

(Certa vez desceu-me um anjo do céu e disse apenas isto: "Tu vais conseguir". Desde então que nunca mais deixei de repetir estas palavras. Quando foi a última vez que distribuíste a tua fé? Poucos gestos de generosidade são maiores e há sempre alguém que é preciso salvar.)

O que é a "Viagem a Nova Iorque"?

“Viagem a Nova Iorque” é um projecto performativo, que reflecte sobre o sentido de êxodo e diáspora, num aspecto simultaneamente colectivo e individual e que coloca em cena questões dramatúrgicas que justapõem níveis de discurso divergentes.

O projecto parte da ideia de “Nova Iorque” enquanto mito e não como lugar geográfico. “Nova Iorque” enquanto El Dorado, meta de refugiados e de imigrantes, lenda do novo mundo e metáfora de um lugar pessoal de paz e prosperidade. Neste lugar os viajantes são por vezes atordoados pelo impacto luminoso nos néons da ideia de um primeiro mundo acessível a todos os audazes. É a Land of the Brave, definição difícil quando sentimos que as regras do jogo não são realmente as que vem no bonito livro de instruções.

A “Viagem a Nova Iorque” trata do mundo contemporâneo onde a informação aparece distorcida e o discurso tem de ser light para poder ser assimilado. Onde todos sabemos do “embuste” e de como a dolorosa impotência provoca o afastamento e a desconfiança perante o espaço público e o jogo político. No entanto, esta é sempre uma viagem de Fé, princípio vital de qualquer oprimido. Quem nunca esteve em circunstâncias de esgotamento? Alguém nunca foi um refugiado por dentro? Por isso, neste início de século, persiste a pergunta: para onde vamos? Entre o medo e a necessidade, vamos para Nova Iorque, ainda.

O Jogo da Glória

O Jogo da Glória
1- You are here; 2- The Bridge; 3- The Inn; 4- The Well; 5- The Maze; 6- The Prison; 7- Death; 8- NYC: Just dream about it!

Temos fome

Na verdade foi o míldio da batata quem colonizou a América.

E eu achei espantosa a relação de escalas entre um fungo e um continente.

O pequeno bicho comia-lhes a comida, eles tinham fome e em consequência cruzavam o Atlântico.

Durante a viagem eram roubados, prostituídos, adoeciam, morriam. Chegando a Ellis Island viam Miss Liberty, a estátua com o fogo na mão a iluminar finalmente o caminho. Nos serviços de imigração abriam a boca, mostravam os dentes como cavalos e ocasionalmente algum embarcava de novo, demasiado imprestável para entrar no futuro. Voltava para o míldio ou morria no Alântico, antes de chegar à casa de onde quis fugir em primeiro lugar.
Era assim. Via-a, mas não lhe podia tocar.

Bem, deixo-vos a receita oportuna. Batatas A Murro, como fazia o meu pai:

É preciso batatas. Depois fogo. Deixa-se morrer para que fique em brasa e atira-se para lá as batatas, sem descascar. Cobre-se de cinzas (como faziam as gregas de luto) e vai-se espetando com um garfo. Quando se vir a olho que está, tira-se sem queimar muito os dedos, com um trapo qualquer. Dá-se-lhes um murro nas trombas e põe-se-lhes sal (não demais, porque se se come demasiado sal seca-se por dentro). Come-se ao relento, olhando silenciosamente o mar.

Memória descritiva- Nova Iorque somos todos

Vou tentar apresentar aqui as ideias que tenho vindo a desenvolver, começando pelo próprio título mesmo. Podia ser uma visão fantástica de Julio Verne, podia ser a Viagem à Lua, ou a Viagem ao Centro da Terra, mas não: é a Viagem a Nova Iorque.

A viagem é simultaneamente física, no sentido de um deslocamento entre dois pontos no espaço e figurativa, no sentido de um deslocamento entre dois pontos da minha consciência. No primeiro sentido, são imediatas as referências aos movimentos migratórios, sempre à procura de melhores condições de vida, a partir de um ponto de esgotamento, até ao que se julga ser o ponto da abundância renovada. No segundo sentido, a viagem abarca uma sucessão de acontecimentos, estações ou episódios, que constroem o caminho da minha consciência até um ponto mais abrangente e que igualmente transcende o ponto da dificuldade inicial. Dir-se-ia: entre o ponto de dor e o ponto de transcendência da situação inicial, relacionando-se com o sentido clássico de enredo: problema, desenvolvimento, clímax e desenlace.

Da mesma forma, Nova Iorque apresenta o mesmo duplo sentido. Por um lado refere-se à cidade física, meta de colonos e de toda a espécie de refugiados, já que também os colonos são refugiados da história económica. Exemplar é o caso da diáspora irlandesa no século XVIII para os Estados Unidos, mas também o êxodo da inteligência europeia, refugiando-se da 2ª Grande Guerra e responsável em grande parte pelo boom cultural da América no século XX. Nova Iorque tornou-se então o grande centro do mundo, (ocidental, claro, mas "do mundo", uma vez que este é o mundo "que interessa"), mas não sem uma ideia de "esforço e superação" ou, como se põe na célebre canção, If you can make it here, you’ll make it anywhere. A ironia é que "os outros" (o terceiro, os excluídos, esfomeados, andrajosos, doentes, enfim, os losers) são os que estão no ponto de partida da História. Origem esta, que se esforça por ocultar, varrendo ingenuamente os miseráveis para debaixo do tapete do salão das festas, o que acabou por se tornar obviamente visível em 2001, lançando o pânico sobre as hordes da bárbaros famintas do terceiro mundo.

A "viagem" relaciona-se então com uma ideia de fome e alimento. Mas atenção, fala-se de fome no sentido de uma carência, que pode ou não ser de origem material, sendo então que a viagem é sempre o caminho para encontrar o alimento ultrapassando a precariedade inicial. Isto tanto pode ser conseguido através de esforço e resistência, como também através de um jogo de astúcia, ultrapassando o adversário e ficando com os seus recurso, já que quando o alimento escasseia impera a lei do mais forte. Os concorrentes não são ingénuos e sabem bem que It’s me or you, o que está na origem da ambiguidade da viagem. Por vezes o jogo é predatório, pondo à vista essa espécie de seleção natural, sendo que o mais forte é frequentemente o menos eticamente comprometido (a fome é negra, certo?). Não quer dizer que seja esse o modelo único. Na verdade, Nova Iorque, a cidade cinematográfica, promove o modelo do herói que vence no argumento do filme graças ao seu extraordinário mérito. É por esta razão que a indústria americana cinematográfica é soberana (à semelhança de outras hegemonias do país). É necessário continuar a acreditar que o bem prevalece no fim, pois como de que outro modo poderia a viagem continuar? É a fé que move as montanhas, as montanhas são o que é preciso passar e a América fornece o imaginário.

Digamos que se a fé é o combustível, então o esforço é o motor. Durante a viagem há vários episódios que é preciso ultrapassar e que representam os perigos e o esforço para uma individuação construtiva. A qualquer momento o viajante pode cair e deixar-se ficar, mas se estiver munido de na bagagem (esperança, ânimo ou entusiasmo) pode sempre voltar a levantar-se através do esforço, o qual tem como objetivo "vencer a gravidade" (da situação). e esforço são então ferramentas indissociáveis e alternativas à astúcia, como bem demonstra a mitologia do cinema americano.

Como bem sabemos o discurso sobre o caminho para a glória está cheio de ambiguidade, já que nem sempre nos é contada toda a verdade e nem todas as intenções são claras. Para isto contribui largamente a queda do paradigma neo-liberal, tão exemplar no episódio das torres, como nos interesses petrolíferos por detrás da cruzada americana no Médio Oriente ou na crise de crédito e mercado imobiliário. Na escala privada da micro-história, traduzir-se-ia por todos os reveses dos emigrantes clandestinos que a salto tentam ainda entrar na terra da oportunidade, atualmente através do mar das Caraíbas ou do deserto mexicano. Lembremo-nos também daqueles que chegando à cidade são forçados a voltar para trás ou escolher viver na clandestinidade do sistema, expostos a todos os perigos dos exploradores da sua vulnerabilidade. O sonho americano pode facilmente reverter-se, revelando então a outra face da viagem, menos luminosa.

Nada de novo debaixo do sol, já que os próprios colonos europeus estavam sujeitos ao mesmo tratamento durante a travessia do Atlântico, onde frequentemente eram explorados pela tripulação dos barcos quando escasseavam os bens vitais. Mas se a viagem tem duplo sentido e nem sempre se refere à cidade física de Nova Iorque, mas também à meta individual que é preciso alcançar, estas personagens nem sempre são os vulgares exploradores da emigração, senão aquelas que representam os antagonistas da viagem de cada um. Os antagonistas que recorrem à astúcia e "crise ética" para usurpar os recursos do viajante e chegarem eles próprios à meta.:os traidores, os parasitas. Todos estamos sujeitos a esta categoria de personagens e nós próprios o poderemos ter sido em algum ponto da viagem, pois como já foi dito, por vezes és tu ou eu. A viagem a Nova Iorque não é uma viagem turística, de sonho. Ou melhor, a viagem, tal como o sonho americano, tem dupla face.

É então imperativo que cada um defina a sua meta pessoal (espécie de "super-objetivo") e defina depois os meios para lá chegar e ir preparado para os reveses da história, simultaneamente colectiva e individual. Nesta viagem não faltam as mentiras, assim como, espera-se, não falta a e o esforço para lá chegar. Por vezes o discurso é incómodo, já que o caminho está cheio de losers, que realmente todos conhecemos e queremos evitar, como se a ausência de esforço e de fé fosse uma coisa passível de contágio e possivelmente é. Obviamente esta é uma viagem arquetípica, difícil e fundamental, mas apesar dos discursos mais ou menos apocalíticos de fim de século é preciso continuar. Cair e ficar no chão é o que é imperativo evitar. Por isso, entre o medo e a necessidade para onde é que vamos? para Nova Iorque, ainda. É que, realmente, Nova Iorque somos todos: caímos e continuamos a andar.

História da Viagem

Outubro, 2007: Visita à cidade de Nova Iorque. Aterragem em JFK, estadia em Hell's Kitchen, em casa de um conhecido actor porno.

Dezembro, 2007: permanece a saga como working class girl, aceitando empregos de subsistência, mal remunerados, desprovidos de prática criativa e esclarecedores quanto aos sistemas de classe até então desconhecidos epidermicamente.

Abril, 2008: Exposição dos desenhos feitos em NYC e primeira apresentação pública do projecto "Viagem a Nova Iorque" na Galeria Por Amor à Arte, Porto. Possui as imagens, mas realmente, não sabe o que fazer com elas.

Setembro, 2008: chegada imprevista a novo porto do projecto no âmbito da oficina "A Oportunidade do Espectador" de Rogério Nuno Costa, dentro do Festival Circular, Vila do Conde. Episódio 1: "Os níveis divergentes do discurso".

Outubro, 2008: passa um ano desde que partiu em direcção ao Novo Mundo. Há 2 meses que a tormenta se amainou e a viagem decorre agora em águas mansas. No entanto, nada de terra, ainda não se vê Ellis Island. Para breve planeia-se a versão pessoal do Jogo da Glória que pertence ao projecto.

Março, 2009: No Lupa, festival caseiro promovido pelo João Costa, jogamos juntos: o público e eu. É difícil trazê-los para o tabuleiro, mas possível. Episódio 2: "O jogo da glória". (As coisas são o que são, mas as coisas não são o que parecem ser.)

Maio, 2009: Episódio 3: "As personagens da viagem" a partir dos desenhos já expostos, inserido no Festival da Fábrica. Testo a medida justa da representação. Not to much, not to less. Pela primeira vez não há mentiras. Não há jogo. Todas as personagens falam a verdade. Ninguém mentiu, ou quase. Obrigada António Lago, obrigada Teresa Prima, muito obrigada João Costa.

Junho, 2009: Episódio 4: "O combate". Nem sei se é realmente um episódio. Série fotográfica.

Abril, 2010: Já passou um ano. Vou fazer o Episódio 5, mais uma vez no Lupa: "O farol/ Rapariga com tocha na mão".

A Viagem A Nova Iorque é (sempre foi) uma estória de amor, engano e morte. Começou em 2007 e terminou em 2010. Como nos filmes. Tenho muitas saudades tuas, NY.

(We will never have Paris, NY. BUT with a ocean between us, you will never be Reboleira. We tried.)


Sinopse

“Viagem a Nova Iorque” é um projecto performativo, que reflecte sobre o sentido de êxodo e diáspora, num sentido simultaneamente colectivo e individual e que coloca em cena questões dramatúrgicas que justapõem níveis de discurso divergentes.

 

O projecto parte da ideia de “Nova Iorque” enquanto mito e não como lugar geográfico. “Nova Iorque” enquanto El Dorado, meta de refugiados e de imigrantes, lenda do novo mundo e metáfora de um lugar pessoal de paz e prosperidade. Neste lugar os viajantes são por vezes atordoados pelo impacto luminoso nos néons da ideia de um primeiro mundo acessível a todos os audazes – é a Land of the Brave. Mas de que é que realmente se trata quando sentimos que as regras do jogo não são as que vem no bonito livro de instruções?

 

A “Viagem a Nova Iorque” trata do mundo contemporâneo onde a comunicação e a informação aparece distorcida. Onde todos sabemos do “embuste” e de como a dolorosa impotência provoca o afastamento e a desconfiança perante o espaço público e o jogo político. No entanto, esta é sempre uma viagem de , princípio vital de qualquer oprimido. Quem nunca esteve em circunstâncias de esgotamento? Alguém nunca foi um refugiado por dentro? Por isso, neste início de século, persiste a pergunta: para onde vamos? Entre o medo e a necessidade, vamos para Nova Iorque ainda.

Prólogo

Nova Iorque/ Outubro de 2007.

Algum tempo antes da viagem comecei a dar-me conta da impressionante mitologia à volta da cidade e o projeto começou a formar-se na minha cabeça. Enquanto lá estive, duas semanas como turista, deparei-me com algumas cenas que já conhecia de ver em filmes e que me pareciam reconfortantemente familiares, como os táxis amarelos, os néons de Times Square, o maciço arquitetónico do Museu de História Natural e a glamour do Empire State Building, a Broadway, a Village; e outras de que não estava à espera, como a excecional simpatia dos habitantes, ainda que superficial, dizem (mas a simpatia não é sempre superficial?). Deparei-me também com os emigrantes e a quantidade de sub-culturas e etnias que compunham a cidade numa mesma massa comum, heterogénea, mas comum.

As Torres, pode dizer-se, tinham caído há pouco e sentia-se ainda aquela espécie de coração magoado da cidade, atingido com uma surpresa, justificada apenas na considerável dose de ingenuidade de uma cultura egocêntrica e espalha-brasa. Nova Iorque parecia uma coisa que tinha brotado do planeta e crescido em altura numa pequena concentração de solo – vulcânica. Tudo me parecia surpreendentemente pequeno. Pequeno, mas agitado e extraordinariamente denso. Eu mal podia crer que na relativamente pequena área de Manhattan se concentrava tanta mitologia do século XX, ainda o meu século. Que trazer então para o futuro? Que fazer com esta espécie de El Dorado caído que introduzia o século XXI?

Havia uma coisa que nos unia. Na altura eu experienciava também um pós-queda. Havia algumas coisas que eu podia entender sobre ir à guerra e ficar por lá. Podia dizer-se que eu tinha perdido. Era uma loser, para usar a terminologia do contexto. Mas isso também era aquela cidade, apenas brilhante ou escura nos filmes, conforme o ângulo. Ali, comigo a passear pelas avenidas e ruas em esquadria, aquela era uma cidade real, não mais crua do que as outras, talvez apenas mais vezes maquilhada. Cair, perder, comecei a dar-me conta, era uma coisa normal – da vida, quero dizer. No way ficar no chão e isso é que era o centro da questão, o centro daquela mitologia que se agitava na minha ideia. O caminho para Nova Iorque, o caminho para a ideia de glória e de sucesso, era sempre o caminho para longe da fome, fosse ela de que espécie fosse.

Quando as casas começaram a arder, ateado o fogo pela mão das pessoas que lá viviam, todos percebemos que alguma coisa se tinha realmente desmoronado de dentro do Império. A constituição americana, o sonho do novo mundo e a sua bela ideia de Humanidade (pós liberté-igualité-fraternité), parecia-me defensável, ainda. Até mais do que nunca, agora que todos estávamos no chão.


Hello. This is me. We need to change things. Raise our voices.

Viagem a Nova Iorque

on the road.

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Acerca de mim

A minha fotografia
Portugal, verão quente de 75. Já não sei quantos dentes tenho, mas continuo a calçar o 37. Ainda pertenço à minha gata, apenas, mas já não confundo o "há" do tempo (o tempo tornou-se finalmente tangível). Nunca cheguei a aprender a patinar, mas caí muitas vezes (nunca fico muito tempo no chão, embora às vezes ande de gatas). Sou simples, o melhor chega-me perfeitamente, etc. Estou aqui. Estou mesmo aqui.